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Artigos SOBRE O ANARQUISMO Nicolas Walter O que pensam os anarquistas? Os primeiros que foram cognominados anarquistas, foram-no por insulto, ao longo das revoluções inglesa e francesa dos séculos XVII e XVIII, para dar a entender que queriam a anarquia, quer dizer, o caos ou a confusão. Mas, a partir dos anos 1840, foram anarquistas os que aceitaram esse nome como símbolo para mostrarem que queriam a anarquia, quer dizer, a ausência de governo. A palavra grega anarkhia, como a palavra inglesa anarchy (ou a portuguesa anarquia) têm os dois sentidos; os que não são anarquistas sustentam que ambas vêm a dar no mesmo, mas os anarquistas fazem questão em fazer a distinção. Há mais de um século, são anarquistas os que crêem não apenas que a ausência de governo não significa forçosamente caos e confusão, mas ainda que uma sociedade sem governo será verdadeiramente melhor do que aquela em que vivemos. (...) (...) Só os anarquistas querem desembaraçar-se do governo, na prática. Isso não quer dizer que pensem que todos os homens são naturalmente bons, idênticos, aperfeiçoáveis, ou qualquer outra cançoneta romântica. Quer dizer que calculam que quase todos os homens são sociáveis, iguais e capazes de viver a própria vida. Muitas pessoas dizem que o governo é necessário porque há pessoas que não sabem portar-se bem, mas os anarquistas dizem que o governo é prejudicial porque não se pode confiar em ninguém para conduzir os outros. Se todos os homens são de tal maneira maus que devam ser governados por outrem, dizem eles, quem é então suficientemente bom para governar os outros? O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente. Por outro lado, as riquezas da terra são produzidas pelo trabalho da Humanidade inteira e todos os homens têm igual direito em tomar parte nesse trabalho e a gozar do seu produto. O anarquismo é um modelo ideal que exige, ao mesmo tempo, a liberdade total e a igualdade total. (...) Democracia e representação Muitas pessoas opõem-se a um governo antidemocrático, mas os anarquistas distinguem-se delas opondo-se também aos governos democráticos. Há outras pessoas que se opõem aos governos democráticos, mas os anarquistas distinguem-se delas não se opondo de maneira alguma porque receiem ou odeiem o governo do povo, mas porque crêem que a democracia não é o governo do povo, que a democracia é na realidade uma contradição lógica, uma impossibilidade física. A verdadeira democracia só é possível numa pequena comunidade, onde cada um pode tomar parte em todas as decisões; nesse momento, já não é necessária. Aquilo a que se chama democracia, e que se pretende que é o governo do povo por si mesmo, é na realidade o governo do povo por governantes eleitos e dever-se-ia antes chamá-lo «oligarquia consentida». (...) Os anarquistas rejeitam portanto a ideia do contrato social e a da delegação dos poderes. Sem dúvida alguma, na prática, a maior parte das coisas será sempre feita por pouca gente, por aqueles que estão interessados por um problema e são capazes de resolvê-lo, mas não há nenhuma razão para que os interessados sejam escolhidos por selecção ou eleição. Eles emergirão sempre de qualquer maneira, e é melhor que isso se faça naturalmente. O importante é que os líderes e os peritos não sejam forçosamente chefes, que a experiência e a capacidade de organização não estejam necessariamente ligadas à autoridade. Pode acontecer que a representação seja útil: mas o verdadeiro representante é o delegado ou o deputado que é mandatado por aqueles que o enviam e que pode ser revogado imediatamente por eles. De certo modo, o chefe que reivindica a representatividade é pior que o usurpador, porque é mais difícil atacar a autoridade quando esta tem por embalagem bonitas palavras ou argumentos abstractos. Que nós possamos eleger os nossos chefes de tempos a tempos, não significa que devamos obedecer-lhes o resto do tempo. Se o fazemos, é por razões práticas e não morais. Os anarquistas são contra os governos, tenham eles chegado ao poder seja de que maneira for. Estado e classe Os anarquistas concentraram tradicionalmente a sua oposição na autoridade do Estado, a instituição que reivindica o monopólio da autoridade dentro de certo domínio. Concentraram-na porque o Estado é o exemplo supremo da autoridade na sociedade e igualmente a fonte ou aconfirmação da utilização da autoridade no seu seio. Aliás, os anarquistas opuseram-se tradicionalmente a todas as formas de Estado, não apenas a tirania evidente dum rei, dum ditador ou dum conquistador, mas também a variantes, tais como o despotismo esclarecido, a monarquia progressista, a oligarquia feudal ou comercial, a democracia parlamentar, o comunismo soviético, etc. Tiveram mesmo tendência para dizer que todos os Estados se equivalem e que não há que escolher entre eles. (...) Não obstante, as instituições que derivam directa ou indirectamente do Estado não podem ser compreendidas se as considerarmos unicamente como más. Podem ter o seu lado bom. Em parte, têm uma função negativa útil quando impedem o uso da autoridade por parte doutras instituições, tais como pais cruéis, proprietários ávidos de ganho, patrões brutais, criminosos violentos; e têm uma função positiva útil quando põem de pé instituições sociais desejáveis, como os trabalhos públicos, as intervenções em caso de catástrofes, os transportes, a arte e a cultura, os serviços médicos, as pensões de reforma, o apoio aos pobres, a educação, a rádio. Existe portanto o Estado libertador e o Estado providencial, o Estado que trabalha pela justiça e o Estado que trabalha pela igualdade. A primeira resposta anarquista a isso é que temos também o Estado opressor, que a principal função do Estado é na realidade submeter o povo, limitar a liberdade, e que todas as funções úteis do Estado podem ser exercidas, e foram-no frequentemente, por associações voluntárias. (...) (...) A segunda resposta anarquista é que a função essencial do Estado é manter a desigualdade existente. Os anarquistas não consideram como os marxistas que a unidade de base da sociedade é a classe social, mas estão de acordo para dizer que o Estado é a expressão política da estrutura económica, que é o representante dos que possuem ou controlam a riqueza da comunidade, e o explorador dos que fornecem o trabalho que cria essa riqueza. O Estado não pode redistribuir equitativamente a riqueza, porque é o principal instrumento da distribuição injusta. Os anarquistas pensam como os marxistas que o sistema actual deve ser destruído, mas não pensam que a sociedade futura possa ser estabelecida por um Estado agarrado por novas mãos: o Estado é tanto uma causa como uma consequência do sistema de classes, e uma sociedade sem classes instaurada por um Estado voltará a tornar-se depressa numa sociedade de classes. O Estado não definhará, deve ser deliberadamente abolido pelo povo, que destrói o poder dos dirigentes e se apossa da riqueza dos que a detêm; essas duas acções estão ligadas, e uma sem a outra será sempre inútil. A anarquia, no sentido mais verdadeiro, significa uma sociedade ao mesmo tempo sem dirigentes e sem ricos. (in Nicolas Walter, Do Anarquismo, Edição e tradução de Júlio Carrapato, Revisão de Gato Preto (http://gatopreto.no.sapo.pt), 18 de Agosto de 2006, 1ª ed. Freedom Press, Londres, 1969) |
Contracorrente nº 6
Já saíu a Newsletter Contracorrente nº 6, de 9 de
Setembro, com um artigo de fundo de Sara Belo Luís sobre o clima de medo que se vive hoje em dia em Portugal. ![]() Subjugado há décadas por uma junta militar, o povo birmanês luta agora ferozmente pela sua liberdade. Veja a nossa apresentação multimédia sobre esta luta. Já está publicado o artigo de Samir Amin dedicado à análise do fenómeno que o autor considera ser o "vírus" liberal. Leia o artigo completo... Inaugurámos no dia 16 de Setembro um novo fórum. Alojado no nosso site, o Fórum Contracorrente convida ao livre debate de ideias, sempre em busca de alternativas a esta feroz globalização neoliberal que nos asfixia. Participe com as suas ideias! |