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ITÁLIA, LABORATÓRIO DO NOVO

José Luiz Del Roio

O desafio das instituições

Como os movimentos ligados ao FSM (Fórum Social Mundial) enfrentarão o desafio de dialogar com as instituições sem se confundir com elas? Para responder a esta pergunta, Planeta Porto Alegre ouviu uma figura emblemática. José Luiz Del Roio, nosso entrevistado, é um brasileiro de 63 anos, metade dos quais vividos na Itália. Integrante da resistência contra a ditadura, deixou o Brasil em 1969, para formação política e militar em Cuba. Ligado à idéia do internacionalismo, viveu no Chile, em Cuba, Peru e União Soviética. Em 1977, fixou-se em Milão, com a tarefa de organizar, a pedido de Luiz Carlos Prestes e com apoio da Fundação Feltrinelli, o Arquivo do Movimento Operário Brasileiro -- hoje transferido e disponível na Unesp, Praça da Sé, coração de São Paulo.

A vida o afastara, porém, do dogmatismo. Virou criador de rádios alternativas (a Popolare é uma das maiores redes de rádio da Itália, hoje) e de associações de comércio justo (promove, na Europa, o café, a cachaça, a castanha do caju e outros produtos brasileiros produzidos em comunidades indígenas ou de agricultura familiar), estudioso da Política e da História. Associou-se desde o início aos novos movimentos italianos e foi um dos incentivadores de sua presença no I Fórum Social Mundial. É um dos fundadores do Fórum Mundial das Alternativas. Junto com François Houtart, um dos pais da Teologia da Libertação, representa a entidade no Conselho Internacional do FSM. Fique, abaixo, com suas palavras.

Qual o clima político na Itália, após a libertação de Giuliana Sgrena e o assassinato de Nicola Calipari?

O país foi tomado por uma forte emoção coletiva. O governo Berlusconi está em grande dificuldade. Há um dado indiscutível: Nicola Calipari, um alto funcionário dos serviços secretos, foi morto por tropas norte-americanas no Iraque. Um outro agente foi ferido, além de uma jornalista, que acabava de ser libertada, sã e salva, por seus seqüestradores. O governo Bush pede desculpas e fala em um "trágico acidente", mas a dinâmica dos fatos indica que a possibilidade de engano é muito remota. Tudo indica que houve realmente uma tocaia: os serviços secretos norte-americanos haviam haviam sido avisados da libertação de Giuliana e de que ela rumava para o aeroporto. Já haviam passado por três check-points. sem problemas. Os agentes italianos embarcados no carro estavam em comunicação constante com o governo de Roma, por meio de seus celulares conectados a satélite. Estes telefones foram levados pelos soldados estadunidenses que os metralharam.

Ora, há um morto e três feridos: os juízes italianos são obrigados a abrir um processo. Acham fundamental, para as investigações, receber estes celulares, para identificar as chamadas feitas. Provavelmente há também, nestes telefones, registro da comunicação com os seqüestradores. É possível que os EUA tenham levado os celulares por este motivo. A teoria que mais circula nos jornais e nos meios políticos diz que Washington é absolutamente contrária a negociações com qualquer grupo insurgente no Iraque. Quer evitar a todo custo acordos, ainda que a custo da vida de seres humanos. O governo italiano negociou, à revelia dos EUA. Provavelmente, as tropas norte-americanas decidiram que deveríamos pagar por isso.

Que desdobramentos é possível esperar desta comoção nacional?

Mais de 100 mil pessoas foram ao entrerro de Nicola Calipari, no Altar da Pátria, em Roma. A emoção envolve também os seus colegas de serviço secreto e os servidores do Estado – em especial, os militares. Ao mesmo tempo, ela toca profundamente todo o movimento ligado aos Fóruns Sociais e à defesa da paz. Repare nos símbolos: Calipari, agente do serviço secreto, atirou-se à frente de Giuliana, ligada a um jornal de esquerda, para salvar-lhe a vida. Há um clima curioso, de grande aproximação, entre os funcionários do Estado e os movimentos. É curioso que Il Manifesto, que se auto-qualifica, no próprio cabeçalho, como "giornale comunista", tenha trazido, na capa da edição de segunda-feira, uma belíssima foto de Calipari, sob o título "Con te" ["Com você", em português]. O prestígio e a tiragem do jornal multiplicaram-se, nos últimos dias. A edição do último domingo [6/3] esgotou-se às 8 da manhã.

Qual a reação da direita?

Tornou-se ainda mais difícil, para o governo continuar justificando o envolvimento italiano na invasão do Iraque. Durante todo o período de seu seqüestro, que durou pouco mais de um mês, houve enorme mobilização. Há duas semanas, mais de 500 mil pessoas foram às ruas, pedindo a libertação da jornalista e, ao mesmo tempo, o fim da guerra. O primeiro-ministro Silvio Berlusconi está silencioso. Seus apoiadores, em posição débil, lançaram mão de uma estratégia de alto risco. Acusam Giuliana Sgrena de ser amiga dos seqüestradores; e Calipari, de ter trabalhado mal. Embora a parte majoritária da mídia italiana a sustente, é uma posição perigosíssima. Ficam obrigados a acusar alguém que entregou sua própria vida.

Quais os próximos passos do movimento contra a guerra?

Os movimentos participaram intensamente das homenagens a Calipari. Por uma questão de respeito, esperamos que termine o luto, para debater politicamente que passos daremos em seguida. A iniciativa imediata tende a se concentrar nas exigências de que o governo italiano pressione a Casa Branca, para saber quem deu as ordens de atirar; e de seja aberto um processo contra os assassinos. Bush e seus subordinados afirmam que haverá investigação profunda. Até agora, porém, não há nenhuma transparência. Os EUA não revelam sequer os nomes de quem atirou contra carro onde estavam Sgrena e Calipari.

A Itália é, há vários anos, o país onde movimentos que se identificam com o Fórum Social Mundial são mais capazes de promover grandes mobilizações e de falar ao conjunto da sociedade. Como adquiriram esta capacidade?

É preciso examinar alguns fatos marcantes de nossa história recente. O primeiro deles foi a enorme decepção com os partidos de esquerda, que governaram o país por quase toda a década de 90. Eles se descaracterizaram no governo, adotando posições de claro apoio ao neoliberalismo e, no tabuleiro internacional, de alinhamento aos Estados Unidos -- então governados por Bill Clinton. Esta foi a marca dos governos dos primeiros-ministros Romano Prodi e, em especial, Massimo D'Alema, egresso do Partido Comunista Italiano (PCI). Uma das piores conseqüências foi o apagamento das diferenças (e, portanto, das opções) políticas. Os partidos italianos passaram a adotar um discurso único, cinzento e tecnocrático. Sua linguagem tornou-se hermética, talvez para ocultar o fim dos sentidos. A sociedade foi afastada do debate sobre seus destinos. Nos parlamentos e nas mídias, os únicos assuntos eram a disputas de ministérios e outros postos importantes.

(...)

Como foi a volta por cima?

Soubemos somar à vitalidade das manifestações o exercício do saber político: habilidade, tática, jogo de cintura. Desagregamos o bloco político-midiático com ações que despertaram simpatia, mobilizavam multidões e dialogavam com o parcelas cada vez mais amplas da sociedade. Pouco mais de um ano depois, concluíamos a virada. Em novembro de 2002, organizamos, em Florença o I Fórum Social Europeu. O governo submeteu a cidade a um cerco policial. A mídia esperava atos de vandalismo. No dia da marcha de encerramento, a maior parte do comércio fechou as portas, em temor. O tiro saiu pela culatra. O FSE foi uma festa de diversidade, construção de alternativas e diálogo. O desfile pelas ruas da cidade reuniu centenas de milhares de pessoas, com incrível bom humor e sem nenhum ato de violência. O sucesso de Florença provocou uma reação em cadeia. Os grandes sindicatos começaram a debater, em seu interior, a necessidade de estabelecer laços com os novos movimentos. Um pouco mais tarde, também os partidos da esquerda institucional percebem que já não podem nos ignorar, sob pena de voltar as costas, também, a parte importante do eleitorado.

Num certo momento, porém, os movimentos italianos deixam de ser apenas contestação ao esvaziamento da política e se tornam alternativa. Como se deu este passo?

Após a virada de Florença, os Fóruns Sociais passaram a ser identificados, na Itália como o espaço em que é possível recuperar a política e reconstruir a esperança na transformação social. É um processo em andamento. Talvez confuso e pouco definido, para alguns – mas certamente muito impetuoso. Nos últimos quatro anos, nos tornamos capazes de reunir, em nossas manifestações, um público sempre numeroso: 100, 200, 500 mil pessoas. De um a três milhões, na fase da luta contra o envolvimento da Itália na invasão do Iraque. O mais importante não é o fetiche dos números. Por trás deles, há uma rede de mobilização social imensa, muito capilarizada. Esta nova tradição, é claro, tem laços com o passado. Além de ser herdeira das lutas sociais dos séculos passados, guarda fortíssimas ligações com o regionalismo e municipalismo que caracterizam a cultura política italiana. Tornou-se cada vez mais capaz de influenciar a vida política. Alcançamos vitórias parciais muito importantes. A novidade mais recente é que, graças a ao fato de influenciarmos parcelas amplas da opinião pública, estamos nos tornando cada vez capazes de pressionar – e em alguns casos empurrar para diante – os próprios partidos políticos.

A que vitórias parciais você se refere?

Lembre-se, em primeiro lugar, de que a Itália tem o governo central mais à direita na Europa. Ainda assim vão surgindo inúmeras experiências na contra-corrente, nos governos locais, de províncias ou regiões. Foram criadas aí, nos últimos anos, centenas de secretarias pela Paz, que promovem ações internacionalistas e são uma novidade absoluta no mundo institucional do país. Multiplicam-se, também, as secretarias para criação de Orçamentos Participativos. Em alguns casos, obrigamos o capital a recuos de grande significado. A luta contra a mercantilização da água, por exemplo, espalhou-se entre a sociedade e contagiou os partidos. Em princípio, a Puglia, no sudeste da Itália, às margens do Mar Adriático, é a região mais suscetível à privatização do setor. Há alguns anos, quase todas as forças políticas trabalhavam, na prática, para transferir a grandes empresas os serviços de abastecimento. Na disputa criada em torno das novas eleições, em abril, tudo mudou. Todas as correntes de centro e esquerda passaram a se manifestar contra a privatização. O processo está e continuará paralisado.

(..)

Em 2006, haverá eleições para renovação do Parlamento e do governo. Você crê na queda de Berlusconi, e no surgimento de um clima político favorável para novos avanços?

Nas próximas eleições, que ocorrerão em 14 das 20 regiões italianas, há tendência clara de uma dura derrota pesada para a direita. Se isso ocorrer, estará aberto, em seguida, o debate sobre o futuro do governo central. Não se deve desprezar Berlusconi, a direita especialmente áspera que o acompanha e os grandes grupos econômicos que apóiam suas políticas. Têm controle total sobre os meios de comunicação de massa, e capacidade financeira quase ilimitada. Ao mesmo tempo, fatos muito concretos indicam o fracasso de seu projeto. O neoliberalismo multiplicou os índices de desemprego, enfraqueceu a economia, pauperizou parte não desprezível da população.

Tudo indica que, contra a direita, irá armar-se um amplo arco de partidos, reunindo desde a Refundação Comunista e os Verdes até os moderados do Partido Democrático de Esquerda, do Partido Socialista e de outros grupos de centro. A grande batalha do movimento será a de conservar sua completa independência, sem se omitir ou perder oportunidade que se abre. Vejo a perspectiva de construir um programa autônomo, pressionar o candidado de centro-esquerda a se comprometer o máximo possível com ele e manter o movimento mobilizado para, em seguida, exigir as novas políticas nas ruas.

(in www.planetaportoalegre.net, entrevista de António Martins, 11 de Março de 2005)


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