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O SÉCULO CURTO

Miguel Portas

Porque quer este século acabar mais cedo do que o destino? Porque se marcou entrada no novo milénio um ano antes de ele ocorrer? Que há, no ar ou na terra, nas gentes ou nas coisas, que tanto nos farta, ou nos cansa, ou nos desencanta? Porque se esvai assim, exangue, o mais extraordinário dos séculos da História conhecida?

Um dos maiores Historiadores vivos, Eric Hobsbawn, olha para o século XX como um «século curto». Na sua opinião, ele começou tarde, com a eclosão da I Grande Guerra, e acabou cedo, na queda do muro de Berlim, em 1989. 75 anos bem contados, cheios de tudo, como não houve outros. Se o velho historiador tem razão, e eu creio que tem, então a antecipação do novo milénio em 365 dias já vem com 10 anos de atraso. Talvez o cansaço ou o desencanto estejam a passar por aqui. Se calhar já estamos noutra», apesar de ainda vivermos «nesta». Ou, se calhar, a primeira década do novo milénio deixa muito a desejar. Soa a falsa.

Já se percebeu que o optimismo não grassa por estas paragens. Uma das figuras deste século, António Gramsci, escreveu um dia sobre «o pessimismo da razão e o optimismo da vontade». Era a frase de um homem que viveu grande parte da sua vida atrás de grades e que daí assistiu a esse fascinante embate entre a primeira tentativa séria de emancipação da Humanidade e a afirmação crescente da mais violenta das barbáries modernas, o fascismo. Era, apesar de tudo, uma frase optimista. Continua ela válida neste fim de século? No fim do tempo que mais abundância trouxe ao mundo e, simultaneamente, aquele em que mais se matou e onde o Homem inventou os meios da destruição total? Continua ela válida? Não sei, sei apenas que não temos alternativa. Talvez por isso, olhando para o conjunto de imagens que a Vida Mundial publicou ao longo de dois anos, aquela que mais me sugere a síntese deste tempo ingrato seja a de uma mulher árabe dirigindo-se a Alá, braços e mãos apontados ao Céu.

Heresia de ateu? Nem por isso. Uma das vitórias do «século curto» é que, nele, a arte passou a ser olhada com outra liberdade: nela vemos o que queremos, não o que se mostra. E por isso descubro nessa imagem não a força do desespero, não a impotência dos humildes, mas, apesar de tudo, essa louca aspiração à Humanidade que teimamos em reclamar.

Barbárie

Nada insensibiliza mais do que uma boa guerra. A guerra desvaloriza desalmadamente o valor da vida, relativiza-a ao infinito. Estive recentemente num país, a Etiópia, que conheceu, nos últimos 800 anos da sua História, um único período de paz, que durou a eternidade de uns 20 anos bem contados. Um povo assim só pode olhar a morte como os melhores filósofos a encararam, embora por razões diemetralmente opostas: para uns e outros, simplesmente, a morte é parte integrante da vida, faz parte do dia-a-dia, é normal, é vida. E na Etiópia, onde a esperança de vida não anda sequer pelos 50 anos, como olhar diferente? Quantas vezes ela não é, mesmo, um alívio?

Ao longo dos séculos, a vida não tem sido mais do que uma violenta luta pela sobrevivência às adversidades. O melhor e o pior da condição humana deve a esse estado de barbárie a sua revelação. Mas este século anunciava a sua diferença. Descobertas tão importantes como a da roda passaram a fazer-se quase todos os dias. A Humanidade do sofrimento foi capaz de criar as condições para que um dos elos decisivos da babárie, o ciclo vicioso da escassez, pudesse ser quebrado.

E a História acelerou. A velocidade, a fusão do espaço e do tempo, a instantaneidade, fizeram a vertigem do «século curto», são a sua grande revolução, a página virtuosa que legamos ao próximo milénio. Apesar disso, as guerras continuaram. Este século teve muitas. Assistiu mesmo à mutação da própria guerra. Só se percebeu bem isso na guerra do Golffo, ou mais recentemente nos Balcãs, onde uma ocupação se decidiu sem invasores no terreno, sem confronto físico visível, sem problemas de cons-ciência para o atacante, portanto. E, no entanto, esta mutação anunciara-se em Hiroshima, quando centenas de milhares de seres humanos viram cair, do céu, a sentença de morte decretada pelos deuses de Washington.

Que distingue então a moderna guerra electrónica da trágica eternidade etíope? Tudo, menos o valor da vida, ou seja, a consciência, o que distingue a condição humana da animal. Regresse, por isso, o leitor, à imagem de Sebastião Salgado. Porque é forte? Porque só na aparência é uma fotografia. Ela é um quadro, uma pintura a preto e branco, um objecto de outro tempo neste tempo, algo que revela o segredo mais escondido deste século - afinal, a barbárie continua a vencer, mesmo quando os melhores de nós julgavam, finalmente, tê-la derrotado. Eis-nos em pleno império do «pessimismo da razão».

(in E o Resto É Paisagem, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 2002, 1ª pub. Dezembro de 1999)


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