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FÓRUM SOCIAL MUNDIAL:
INICIATIVA DO FSM FOI UM ÊXITO

Redação do Inter Press Service

Santiago, 29/01/2008 (IPS) - Ao contrário dos maciços encontros convocados pelo Fórum Social Mundial nos últimos anos, o Dia de Mobilização e Acção Global, realizado sábado [26 de Janeiro], não encheu avenidas em todo o mundo nem ocupou um só título dos media progressistas, muito menos dos convencionais.

Mas o brasileiro Cândido Grzybowski, um dos lideres mais influentes do movimento, acredita que a iniciativa foi um êxito, porque pessoas de 72 países do mundo puderam, uma vez mais, “restabelecer a cidadania”.

O sociólogo e activista filipino Walden Bello disse ontem: “O Dia Mundial de Acção foi algo novo, por isso não estou surpreendido pela mobilização não ter sido tão grande. Mas, mesmo assim, tem grande impacto o fato de ter se registado numa grande quantidade de cidades sem que houvesse uma emergência mundial na agenda, como responder a outra invasão”. “Houve êxitos realmente importantes, como a grande mobilização na Cidade do México. Vamos examinar as nossas experiências no primeiro Dia Global de Acção e aprender com elas. A prática as aperfeiçoará”, acrescentou, em entrevista por e-mail.

Com cerca de 10 mil participantes em todo o País, o Brasil, local de nascimento do FSM em 2001, transformou-se novamente no seu centro. No Rio de Janeiro, o Dia de Acção coincidiu – e de alguma forma competiu – com o carnaval. Com a única excepção do México, nenhum outro Dia de Acção rivalizou com a mobilização do Brasil. Desde a Itália, onde os activistas estavam devastados pela queda do governo de centro-esquerda e a possibilidade de uma volta triunfal do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, até Atlanta, nos Estados Unidos, apenas os mais comprometidos saíram às ruas para reafirmar que “outro mundo é possível”, o lema do FSM.

Paradoxalmente, a crise de direitos humanos em Gaza levou organizações não-governamentais palestinianas a manterem-se longe do Dia Mundial de Acção, temerosas de que facções políticas manipulassem as suas iniciativas. Débil em números, o Dia Mundial de Acção competiu com uma jornada muito rica em notícias: a vitória de Barack Obama nas eleições primárias face ao seu opositor do Partido Democrata dos Estados Unidos na Carolina do Sul, a maciça fuga de palestinianos de Gaza, a repressão mortal no Quênia, a morte do ex-ditador Ali Suharto e a detenção de Jérôme Kerviel, operador financeiro francês, que a partir da sua casa provocou uma perda de sete bilhões de euros ao banco francês Société Générale e a quem agora é concedido o mérito de ter salvo o mundo da recessão.

A pergunta que muitos se fazem hoje no FSM é se os títulos marcam uma diferença, porque, se assim for, o Fórum estaria neste momento condenado ao fracasso. Mas há diferentes agendas informativas no planeta e a criação de uma própria poderia ser um tema central para os países do Sul em desenvolvimento. Até agora, o FSM não conseguiu manejar o impressionante sucesso de relações públicas de 2002 e 2003, quando os principais meios de comunicação internacionais enviavam correspondentes a Porto Alegre para averiguar do que se tratava ser esse “rival” do Fórum Económico Mundial, que acontece anualmente em Davos (Suíça).

A maioria dos analistas explica hoje que tal repercussão foi resultado da novidade do FSM e do seu inesperado número de participantes. Coincidem com estes factos que a escassa atenção da imprensa actualmente se deve a factores que variam desde a censura deliberada até a falta de “atracções”, como estrelas do mundo do espectáculo ou celebridades intelectuais, que o Comitê Internacional do Fórum decidiu não promover. Estrelas como o vocalista Bono da banda U2 agora preferem ir a Davos, onde acreditam que podem influir nas grandes potências, em vez de se associarem com um evento de carácter vago e onde deveriam permanecer no meio da multidão.

O vídeo da “resposta de Bono à pergunta de Davos” foi visto 46.463 vezes no site YouTube até a manhã de domingo, contra apenas 1.952 visitas do vídeo de Peter Riot, director do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/SIDA. Fica claro que só quando manifestantes contra a globalização atiram pedras contra lojas do McDonald’s e enfrentam a polícia, o “movimento social” consegue um espaço nos maiores meios de comunicação.

Sob esta discussão está o doloroso debate interno do FSM sobre si mesmo. Nascido como um exercício intelectual para contestar a arrogância de Davos com propostas alternativas à ideologia do “fim da história” da década de 90, transformou-se num fenômeno político mundial cuja direcção hoje ninguém parece ser capaz de prever, muito menos de dirigir. Walden Bello, destacado sociólogo filipino, é o promotor mais radical de uma reforma total do Fórum, para dotá-lo de uma estratégia e uma postura sobre cada um dos principais problemas do mundo.

“Creio que o Dia de Acção mundial é uma boa idéia. É um primeiro passo para transformar o FSM de um simples fórum de discussão num âmbito de acção”, disse em recente entrevista ao TerraViva. “É essencial tomar posição sobre questões-chave como a agressão dos Estados Unidos no Médio Oriente, a opressão sionista do povo palestiniano e o modelo neoliberal criador de pobreza, para que o FSM possa ser vibrante e relevante. Pelo contrário, negar-se a tomar uma posição sobre estes assuntos com o argumento de que isto afugentará alguns grupos é uma forma segura de reduzir a importância do movimento”, ressaltou.

Mas, o economista Pedro Stédile, um dos fundadores do FSM e principal ideólogo do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, acredita que essa proposta é uma ilusão. “O FSM é um espaço de debate, intercâmbio e reflexão. Seria uma ilusão crer que é possível adoptar mais resoluções práticas ou plataformas ideologicamente unidas. Isto poderia dispersar energias e fecharmos-nos em lutas ideológicas internas”, afirmou. “Apostamos que o FSM se converterá numa feira de ideias”, disse Stédile à IPS.

Para Anuradha Mittal, uma activista indiana que dirige o Instituto Oakland dos Estados Unidos, “Os anteriores FSM deram-nos esperança noutro mundo, e agora devemos demonstrar que esse mundo pode ser conseguido. Fazer com que os partidos e os lideres políticos prestem contas às pessoas é um valioso papel que os movimentos sociais podem desempenhar. Estes garantem a legitimidade, espiritualidade e os valores da acção política. Não é preciso que os movimentos sociais se convertam em partidos políticos”, disse ao TerraViva.

Esse aspecto espiritual não deve ser subestimado. Em 2001, quando nasceu o FSM, o cenário político mundial parecia estático, consolidado pela ideologia neoliberal e de mercado surgida das ruínas do confronto Leste-Oeste no século XX. Desde essa primeira edição, oito novos governos da América Latina foram eleitos com base em plataformas semelhantes aos princípios do FSM, e embora sigam diferentes estratégias para acabar com a pobreza e construir economias sustentáveis e equitativas, todos concordam na necessidade de se unir contra o controle que os Estados Unidos exercem sobre a região.

Em 2005, numa assembleia da Organização dos Estados Americanos, conseguiram derrotar uma iniciativa encabeçada pelos Estados Unidos para estabelecer um acordo continental de livre comércio. Disse Grzybowski: “Estou completamente seguro de que o nascimento do FSM em Porto Alegre esteve relacionado com as condições anteriores da região: uma região que se rebelava contra as políticas neoliberais, que estava comprometida com o processo de democratização e que experimentava uma onda esquerdista após as ditaduras militares. O FSM não produziu essa onda por si mesmo, mas seria difícil concebê-la sem ele”, acrescentou.

Em Janeiro do próximo ano, o FSM terá novamente um centro de reunião, em Belém, no Estado do Pará, a milhares de quilómetros do local onde nasceu e talvez a séculos de distância do industrializado e moderno sul brasileiro. Ainda não há avaliações, mas é provável que o movimento conclua que qualquer “Dia Mundial de Acção”, com ou sem uma estratégia política mundial, necessita de um lema único (mais do que celebridades) para despertar a consciência pública e gerar mobilização.

* Este artigo foi publicado originalmente no último dia 27 de Janeiro pelo TerraViva e reeditado para o serviço de notícias do IPS. (http://www.mwglobal.org/ipsbrasil.net/index.php)


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