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Artigos JEAN-PAUL SARTRE: Jim Holt Quem foi Jean-Paul Sartre? Foi o grande filósofo da liberdade do século XX? Ou foi o mais influente apologista do totalitarismo? Mais do que duas décadas passadas sobre a sua morte, os intelectuais franceses tentam reconciliar os dois Sartres. Nos cafés de Paris, a questão “Êtes-vous Sartrien?” é novamente ouvida. Recentemente, uma nova biografia de Sartre e várias homenagens à sua carreira tornaram-se best sellers em França. Uma delas, a obra de Bernard-Henri Lévy, Sartre: O Filósofo do Século XX, foi agora trazida a lume em língua inglesa. (...) Como um intelectual superstar e monstre sacré, Sartre não tem igual no mundo de língua inglesa. Mesmo em França, teria de recuar-se até Voltaire para encontrar uma figura de estatura comparável. (...) Ele criou o existencialismo, uma filosofia que podia ser vivida. Fundou o Libération, que se viria a tornar no mais poderoso jornal francês de esquerda. (...) A França é um país que venera a filosofia; ensinada no liceu, debatida nos cafés-philo. Mas em que medida é que Sartre foi um bom filósofo? Alguns críticos dizem que, ao criar o existencialismo, ele apenas pegou nas ideias de Heidegger e lhes deu um brilho gaulês. (...) Isso é injusto. É certamente verdade que Sartre, criado num meio bilingue da Alsácia, tinha uma grande dívida para com o pensamento alemão. Mas o ponto de começo da sua filosofia, como ele insistiu sempre, foi a fórmula cartesiana “Penso, logo existo”. A consciência, o âmago do nosso ser, é um vazio ou “negatividade” que tem de ser preenchido através de escolhas arbitrárias - esta é a ideia que se encontra escondida por detrás do seu célebre aforismo: “Estamos condenados a ser livres”. Apesar das complexidades fenomenológicas da sua filosofia, Sartre conseguiu torná-la excitante. Qualquer pessoa podia ser um existencialista, especialmente os jovens. Nas caves subterrâneas de St. Germain-des-Prés, a dança jazz foi considerada a mais alta expressão do existencialismo. Nunca um filósofo sério teve tanto impacto na vida nocturna. (...) O período clássico de Sartre como filósofo tinha acabado pelo fim da década de 40. A guerra tinha-o politizado. No início dos anos 50, quando a guerra fria estava no seu apogeu, ele compreendeu que estava “a viver uma neurose”. Apesar da sua filosofia de acção, não teria passado de um mero escritor burguês, como Flaubert. O seu interesse pelo marxismo despertou e decidiu alinhar com o Partido Comunista - isto num tempo em que os crimes de Estaline estavam a ser documentados e em que outros intelectuais estavam a abandonar o partido. O antigo filófoso da liberdade transformara-se no Sartre totalitaire. (...) À luz dos embaraçosos últimos anos da sua carreira, porque é que Sartre se torna novamente objecto de veneração? Apesar de tudo, os intelectuais franceses deslocaram-se consideravelmente para a direita depois da sua morte. (...) Aqui vai um exemplo do que ouvi durante um colóquio entre vários Sartriens (incluindo Bernard-Henry Lévy), em Paris, há uns tempos: “Sartre trouxe-nos a doença - o totalitarismo - e também o seu antídoto: a liberdade” (...) “Voltaire também cometeu erros” A impressão com que saí foi de profunda nostalgia. Sartre era o Último Intelectual. Na realidade, França ainda tem escritores filósofos, que também participam em manifestações. (...) Mas nunca existirá de novo uma tal combinação de teórico total, colosso literário e engagé político como Sartre. Os intelectuais franceses de hoje parecem, em comparação, tecnocratas insignificantes. Felizmente, provaram estar do lado vencedor da história, de forma que se podem permitir ser engraçados para com ele, ao dizer, juntamente com De Gaulle, Sartre c’est aussi la France. (in Slate, ed. em 22 de Setembro de 2003, Nova Iorque) |
Contracorrente nº 6
Já saíu a Newsletter Contracorrente nº 6, de 9 de
Setembro, com um artigo de fundo de Sara Belo Luís sobre o clima de medo que se vive hoje em dia em Portugal. ![]() Subjugado há décadas por uma junta militar, o povo birmanês luta agora ferozmente pela sua liberdade. Veja a nossa apresentação multimédia sobre esta luta. Já está publicado o artigo de Samir Amin dedicado à análise do fenómeno que o autor considera ser o "vírus" liberal. Leia o artigo completo... Inaugurámos no dia 16 de Setembro um novo fórum. Alojado no nosso site, o Fórum Contracorrente convida ao livre debate de ideias, sempre em busca de alternativas a esta feroz globalização neoliberal que nos asfixia. Participe com as suas ideias! |