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Artigos CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU IGNORA CRISE ALIMENTAR Thalif Deen A crise alimentar
que originou protestos e distúrbios em quase 30 países, a maioria africanos,
continua sem atrair a atenção do Conselho de Segurança da Organização das
Nações Unidas. “Se não forem
tomadas as medidas necessárias para evitar uma maior deterioração da crise
alimentar mundial no tocante à segurança, o Conselho será negligente”, disse à
IPS o alto representante da ONU para os países menos desenvolvidos, Anwarul
Karim Chowdhury. No passado, acrescentou, este órgão discutiu assuntos como o
possível impacto sobre a paz e a segurança da pandemia da Sida e da mudança
climática, embora outras agências das Nações Unidas se ocupem directamente
dessas questões. “Nem o Conselho
Económico e Social (Ecosoc) nem a Organização das Nações Unidas para a
Agricultura e a Alimentação (FAO) têm entre as suas atribuições tratar dos
problemas de segurança relacionados com a crise alimentar”, disse Chowdhury.
Por sua vez, o embaixador da Grã-Bretanha na ONU, John Sawers, que este mês
preside às deliberações do Conselho de Segurança, afirmou à imprensa que a
crise alimentar deve ser abordada noutras instâncias. Sawers mencionou,
especificamente, o Ecosoc, “onde todos podem participar em pé de igualdade para
tratar, fundamentalmente, dos aspectos humanitários e de desenvolvimento
relacionados com a segurança alimentar”. Integrado por 54
dos 192 Estados-membros da ONU, o Ecosoc coordena as iniciativas económicas e
sociais do fórum mundial e das suas agências especializadas. Mas, não tem as
atribuições executivas e resolutórias do Conselho de Segurança. “Mais cedo ou
mais tarde, o Conselho terá que deixar de lado o seu realce eminentemente
político dos conflitos para reconhecer que estes não podem ser prevenidos sem
uma abordagem das condições económicas e sociais”, disse James Paul,
director-executivo do Fórum de Políticas Globais, com sede em Nova York, que
avalia as actividades das Nações Unidas. Para Paul, a
crise alimentar e a mudança climática deixam claras essas perigosas limitações.
“As duas crises vêm de muito tempo, mas, não foi tomada nenhuma acção
internacional séria”, afirmou Paul à IPS. “Discutir qual é o organismo da ONU
mais apropriado para tratar da crise alimentar é, em certo sentido, válido, mas
não resulta completamente convincente, pois o Conselho de Segurança é um órgão
poderoso e o Ecosoc, infelizmente, é relativamente fraco”, acrescentou.
Enquanto as potências e alguns interesses poderosos se refugiam atrás dessa
discussão, a crise agrava-se, ressaltou Paul. Nos últimos
meses, cem milhões de pessoas em todo o mundo foram arrastadas para a fome e a
desnutrição, enquanto a crise alimentar causou distúrbios em 30 países. “Apesar
de tudo, o Conselho de Segurança continua a tratar dos seus assuntos
rotineiramente, com a esperança de que o problema desapareça”, afirmou Paul.
“Quantos milhões de pessoas famintas são necessários para que a comunidade
internacional considere acções de emergência? Não apenas fundos de ajuda
alimentar, mas mudanças fundamentais na forma com os alimentos são produzidos e
chegam ao consumidor”, acrescentou. Chowdhury
recordou que foi a Grã-Bretanha o país que tomou a iniciativa de levar ao
Conselho de Segurança as discussões sobre mudança climática, pois entendeu que
o fenómeno representava uma ameaça para a paz e a segurança. Porém, o Grupo dos
77, que reúne 130 países em desenvolvimento mais a China, se opôs a essa
decisão, argumentando que o tema deveria ser abordado pelos órgãos da ONU
responsáveis pelo desenvolvimento sustentável e não pelo Conselho de Segurança.
Esse protesto não foi considerado. Nesta semana, entretanto, o representante
britânico utilizou o mesmo argumento para assinalar que a crise alimentar deve
ser tratada no contexto do Ecosoc. “É um caso clássico de hipocrisia política”,
disse um diplomata alinhado com o Grupo dos 77. “Quanto tentámos fazer com que
a mudança climática fosse discutida pelo Ecosoc e por agências ambientais das
Nações Unidas, os britânicos opuseram-se”, afirmou. (in Inter
Press Service / Envolverde, 8 de Maio de 2008) |
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