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Artigos GUARDAR O PESSIMISMO PARA TEMPOS MELHORES Vítor Correia Esta frase “paga” direitos de autor – corresponde ao título de um artigo da revista “A Ideia”, publicado num número da revista durante o auge da crise económica 1983-5. Nos tempos que correm, não só o clima económico apresenta certas semelhanças como, muito mais grave do que uma “simples” crise económica, o sistema político saído da Revolução dos Cravos apresenta evidentes sinais de exaustão, enquanto a Sociedade vive (outra vez!) mergulhada numa “apagada e vil tristeza”. Neste angustiante contexto, a única coisa que nos vem à ideia é a ética estóica – uma ética para tempos difíceis, como os mais versados em História poderão facilmente comprovar. É acerca dessa Ética que nos ocorre alinhar umas breves palavras. Não que a filosofia estóica se resumisse à Ética, longe disso; mas duas circunstâncias concorrem para darmos à Ética estóica lugar de relevo.
Em primeiro lugar, a filosofia estóica constitui uma unidade, e os diversos capítulos em que os próprios filósofos estóicos a dividiram, com finalidades pedagógicas, “desaguam” na Ética; em segundo lugar, foi na Ética que o estoicismo atingiu maiores originalidade e elevação. Diz Bertrand Russel, na sua “História da Filosofia Ocidental”: Historicamente (embora não filosoficamente), muito mais importantes do que os primeiros estóicos, foram os três de Roma – Séneca, Epicteto e Marco Aurélio - um ministro, um escravo e um Imperador, respectivamente. Estamos em crer que esta afirmação de B.R. se deve à existência de abundante documentação relativa a este “trio”, contrariamente ao que acontece relativamente aos filósofos estóicos anteriores. Ainda B.R.: “É notável o acordo de Epicteto e Marco Aurélio em todas as questões filosóficas”. E agora, de nossa lavra: uma filosofia que concita o acordo de um Imperador e de um escravo não pode deixar de ser, também ela, notável. Notável que seja, em que consiste? Seguimos aqui a “História da Filosofia”, empreendimento levado a cabo sob a direcção de François Châtelet, e cingir-nos-emos, como já dissemos anteriormente, à Ética: Assim, e passamos a citar, “esta reduz-se a alguns princípios simples: o único bem que existe é a rectidão da vontade, o único mal é o vício; tudo aquilo que não é vício nem virtude, é indiferente. (...) Epicteto dará a esta doutrina, tradicional no estoicismo, uma expressão brilhante, ao distinguir “as coisas que dependem de nós e aquelas que não dependem”. (...). Ora, depende de nós, por um lado, o querer com rectidão; por outro lado, o representar como indiferente tudo o que não depende de nós. Um curto parêntesis, apenas para recordar que tais ideias, sob esta forma ou sob formas semelhantes, são recorrentes na História da Humanidade. Assim, tanto nos aparecem no Tao-Te-King (ou Dao-De-Jing, caso o leitor opte por esta grafia “moderna”); como... imagine-se! Na famosa epístola de M.M. Bocage, que veio a ficar conhecida como “Pavorosa Ilusão de Eternidade”. No caso do nosso augusto Poeta, não se trata – de modo algum! – de uma ressurgência neo-estoica, mas de uma crítica à então “monopolista” religião católica, feita com intuitos mais físicos do que propriamente metafísicos... Mas serve esta referência para mostrar o quanto o ideal estoico releva do bom senso... (...) A certeza de reflectir em nós a ordem cósmica; (...) o sentimento quase religioso de fraternidade dos homens vindos do mesmo “pai” permanecem, desde o Hino a Zeus de Cleantes aos Pensamentos de Marco Aurélio o fundamento do optimismo estóico: não amor cego pelo destino, mas fé reflectida na Providência. (...) Na presente (e fosca) conjuntura, parece-nos essencial este exercício de “distinguir o que depende de nós do que não depende” e, bem assim, “querer com rectidão”. Não que “o que não depende de nós” nos deva ser de todo indiferente, mas sim relativizado e avaliado na sua justa perspectiva. O referido esgotamento do sistema político saído do 25 de Abril “não depende de nós”; mas já depende de nós, mesmo que em escala modesta, o que se vai seguir até à sua desaparição, e mesmo depois... Uma só bússola para orientar a nossa acção: o “querer com rectidão”. E será também “querendo com rectidão” que evitaremos contribuir para a manutenção ou, eventualmente, para o agravamento, do clima malsão em que a Sociedade portuguesa, desconhecemos por que decreto dos fados, se encontra presentemente a afundar.... (in Encontros Irreais - Boletim informativo semanal, n.º 8, 25 de Outubro de 2003) |
Contracorrente nº 6
Já saíu a Newsletter Contracorrente nº 6, de 9 de
Setembro, com um artigo de fundo de Sara Belo Luís sobre o clima de medo que se vive hoje em dia em Portugal. ![]() Subjugado há décadas por uma junta militar, o povo birmanês luta agora ferozmente pela sua liberdade. Veja a nossa apresentação multimédia sobre esta luta. Já está publicado o artigo de Samir Amin dedicado à análise do fenómeno que o autor considera ser o "vírus" liberal. Leia o artigo completo... Inaugurámos no dia 16 de Setembro um novo fórum. Alojado no nosso site, o Fórum Contracorrente convida ao livre debate de ideias, sempre em busca de alternativas a esta feroz globalização neoliberal que nos asfixia. Participe com as suas ideias! |