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Artigos FRAGMENTOS DA MINHA VIDA Bill Clinton * Ieltsin Dois dias depois da [minha] eleição [para a Casa Branca, em Novembro de 1992], Ieltsin telefonou-me para me felicitar e me convidar a ir o mais cedo possível a Moscovo para confirmar o apoio dos Estados Unidos às suas reformas, face a uma oposição crescente no seu país. Ieltsin estava cercado pelos abutres e eu queria ajudá-lo. (...) Quando do nosso encontro a 3 de Abril [1993, Vancouver], houve ao princípio um certo mal-estar quando ele explicou que seria necessário que, ao receber a assistência americana para facilitar a passagem da Rússia à democracia, não parecesse andar a reboque dos Estados Unidos. Depois da primeira reunião, a minha equipa receava que eu deixasse que ele me pregasse um sermão, tal como Krutchev tinha tiranizado Kennedy, quando do seu célebre encontro em Viena, em 1961. Era necessário que eu não aparecesse em posição de fraqueza. Isso não me inquietava, porque a analogia política não existia. Ieltsin não pretendia que eu perdesse a face, como Krutchev com Kennedy; ele esforçava-se por fazer boa figura face aos inimigos que queriam a sua pele. Durante a semana que precedeu a nossa reunião, eles tinham tentado demiti-lo das suas funções na Duma. Saíram derrotados, mas a moção tinha obtido um grande número de votos. Eu podia adoptar uma atitude um pouco grandiloquente, se isso ajudasse a Rússia a manter-se no bom caminho. (...) Saí de Vancouver com uma confiança reforçada em Ieltsin, tendo compreendido melhor o alcance dos seus desafios e a sua determinação visceral em ultrapassá-los. Além disso, ele agradava-me. Era uma grande figura, recheado de contradições aparentes. Tinha crescido em condições arcaicas, que faziam parecer a minha infância com a de um Rockefeller; podia ser grosseiro, mas tinha um espírito bem formado, capaz de se aperceber das subtilezas de qualquer situação. Num piscar de olhos, passava da agressividade ao mais caloroso abraço. Parecia, alternadamente, friamente calculista e realmente sensível, mesquinho e generoso, furioso contra todo o mundo e muito divertido. (...) A Rússia tinha sorte em tê-lo como líder. Amava o seu país, detestava o comunismo e queria uma Rússia ao mesmo tempo forte e boa. De cada vez que alguém fazia um comentário jocoso sobre a sua tendência para o álcool, lembrava-me do que Lincoln teria dito quando os snobs de Washington dirigiam a mesma crítica ao general Grant, de longe o seu melhor comandante durante a Guerra da Secessão: «Informem-se sobre o que ele bebe e dêem-no aos outros generais.» Ao fim de pouco mais de cem dias no poder, nós tínhamos dado passos de gigante na nossa assistência a Ieltsin e à democracia russa. (...) Bush em visita No dia seguinte [19 de Dezembro de 2000, alguns dias depois de George W. Bush ter sido proclamado eleito, mas antes da sua tomada de posse], o futuro presidente Bush veio ver-me à Casa Branca, tal como eu tinha ido ver o seu pai, oito anos antes. Discutimos sobre a campanha, sobre o funcionamento da Casa Branca e sobre a Segurança Nacional. De acordo com a equipa de antigos administradores republicanos que ele estava a reunir, os principais problemas de segurança eram o escudo anti-mísseis e o Iraque. Eu disse-lhe, baseando-me nos meus oito anos de experiência, que os seus principais problemas de segurança seriam, por esta ordem, Osama Bin Laden e a Al-Qaeda; a ausência de paz no Médio Oriente, o impasse entre as potências nucleares da Índia e do Paquistão, os laços que uniam os paquistaneses aos talibans e à Al-Qaeda, a Coreia do Norte e, por fim, o Iraque. Disse-lhe que a minha maior decepção tinha sido a de não capturar Bin Laden, que a esperança de atingir a paz no Médio Oriente não estava perdida e que nós tínhamos quase concluído um acordo com a Coreia do Norte para que pusesse fim ao seu programa de mísseis, mas que faltava, sem dúvida, que ela se dispusesse a assiná-lo. Ele ouviu-me sem fazer comentários e depois mudou de assunto. (...) Testamento Reflecti sobre a nota que iria escrever ao presidente Bush para deixar no gabinete, tal como o pai dele tinha feito comigo oito anos antes. Queria ser cortês e animador, como George Bush tinha feito em relação a mim. George W. Bush iria ser em breve o presidente do nosso povo e eu desejava-lhe boa sorte. Tinha ouvido com atenção o que Bush e Cheney disseram durante a campanha. Eu sabia que a sua visão do mundo era muito diferente da minha e que queriam desfazer muito daquilo que eu tinha feito, especialmente nos domínios da economia e do ambiente. Pensava que eles fariam passar as suas reduções de impostos e que voltaríamos rapidamente aos défices consideráveis dos anos 80. Eu sabia que, apesar dos seus comentários animadores sobre a Educação, Bush sofreria pressões que o incitariam a reduzir as despesas internas, em especial na Educação, na protecção às crianças, nos programas paraescolares, no policiamento das ruas, na inovação em investigação científica e no ambiente. Mas eu não podia fazer nada. Pensei que as parcerias internacionais que tínhamos concretizado depois da guerra fria seriam comprometidas pela posição muito mais unilateral dos republicanos - que eram contra o tratado de proibição dos ensaios [nucleares], o tratado sobre as mudanças climáticas, o tratado ABM e o Tribunal Penal Internacional... Eu não tinha qualquer forma de controlo sobre aquilo em que se tornariam as minhas decisões, os programas que tinha lançado; poucas coisas perduram em política. A única questão importante para mim era saber se tinha feito o que era preciso para o povo americano, numa era nova, diferente, a da interdependência mundial. (in Ma vie, trad. Suzana e Jorge Borges, Editions Odile Jacob, Paris, 2004) * Bill Clinton foi presidente dos Estados Unidos da América entre 1992 e 2000. Destacado dirigente do Partido Democrata, cumpriu dois mandatos à frente da Casa Branca. |
Contracorrente nº 6
Já saíu a Newsletter Contracorrente nº 6, de 9 de
Setembro, com um artigo de fundo de Sara Belo Luís sobre o clima de medo que se vive hoje em dia em Portugal. ![]() Subjugado há décadas por uma junta militar, o povo birmanês luta agora ferozmente pela sua liberdade. Veja a nossa apresentação multimédia sobre esta luta. Já está publicado o artigo de Samir Amin dedicado à análise do fenómeno que o autor considera ser o "vírus" liberal. Leia o artigo completo... Inaugurámos no dia 16 de Setembro um novo fórum. Alojado no nosso site, o Fórum Contracorrente convida ao livre debate de ideias, sempre em busca de alternativas a esta feroz globalização neoliberal que nos asfixia. Participe com as suas ideias! |