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VELHA MIOPIA

Noam Chomsky *

É certamente necessário fazer distinções, e procurar compreender, não apenas as motivações de Bin Laden e dos homens-bomba palestinos, mas também os interesses das comunidades de onde vieram e quem são os destinatários de seu recado.

No caso de Bin Laden, suas motivações e ressentimentos, não me vem à mente qualquer coisa além do usual: no melhor dos casos, poderia citar a obra “Al Qaeda”, de Jason Burke, repórter do The Observer. Uma análise, de todo modo, algo similar à de livros como "Imperial Hubris", de Mike Scheuer (um ex-agente da CIA), “Osama”, do ex-correspondente do Washington Post Jonathan Randall, e outros, que oferecem visões mais ou menos parecidas.

Não são poucos os que consideram Bin Laden ao pé da letra – com o Pentágono, parece ser este o caso. O Sub-Secretário de Defesa dos EUA, Paul Wolfovitz, explicou a redução no contingente militar estadunidense na Arábia Saudita como uma maneira de diminuir uma declarada motivação dos terroristas contra Washington – a “ocupação” do país árabe por forças norte-americanas. Não à toa, no caso de Bin Laden sua ideologia é geralmente associada a algumas idéias básicas: a defesa das terras islâmicas contra ocupantes e agressores infiéis, a derrubada de líderes corruptos e a imposição de uma versão purista do Islã. Até o momento, não sei de qualquer evidência independente que vá além destas análises “padrão” - em todo caso, bastante compartilhadas.

As coisas são um pouco diferentes, porém, quando o assunto são os ressentimentos do mundo islâmico. Aparentemente, os terroristas a la Bin Laden se vêem como uma vanguarda, interessados em mobilizar gente que não gosta deles, e que chega mesmo a temê-los -- mas que, mesmo assim, reconhece alguma justiça na causa que pregam. Estas rusgas são bastante conhecidas desde 1958, quando Eisenhower alertou sobre “a campanha de ódio (propagada no mundo árabe) contra nós (dos EUA)” -- idéia à qual o Conselho de Segurança Nacional atribuiu a relação, feita pelos árabes, entre a política externa estadunidense e o apoio a ditadores brutais e corruptos, bem como à sabotagem à democracia e ao desenvolvimento na região (motivadas, neste caso, por interesses petrolíferos). Investigações posteriores, intensificadas após o 11 de setembro, chegaram às mesmas conclusões, neste caso juntamente a um sentimento de repulsa a políticas bastante específicas – especialmente o apoio à brutal ocupação israelense e às sanções assassinas que acabaram devastando a população iraquiana. Ressentimentos que, logicamente, aumentaram após a invasão do Iraque. No que diz respeito a esta questão, acho pouco provável que, entre especialistas e agentes de inteligência, você consiga encontrar opiniões muito divergentes.

Logicamente, ideologistas dogmáticos preferem a oratória calcada no ódio do mundo islâmico pelas liberdades do mundo ocidental, ou no desejo árabe de empurrar os judeus ao mar, etc. Mas duvido que analistas sérios prestem atenção a este tipo de declaração. Em todo caso, como você avalia estas motivações é interesse seu...

(in Planeta Porto Alegre, www.portoalegre2003.org, trad. Tiago Soares, 28 de Fevereiro de 2005)

* Noam Chomsky é um prestigiado linguista norte-americano, desempenhando actualmente as funções de professor de linguística no Massachussets Institute of Technology. É também um filósofo e analista político de renome mundial.


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